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Adoçar ou não adoçar?


Fico muito triste quando um cliente se sente constrangido ou se desculpa pelo fato de querer adoçar o SEU próprio café. Esse constrangimento descabido é fruto de um fenômeno que chamo de “Ditadura do café sem açúcar”.

Ele surgiu da vontade e necessidade das pessoas que trabalham com café especial de mostrar para o consumidor que o açúcar é usado geralmente para mascarar defeitos e problemas na bebida. Louvável! Realmente, os cafés de qualidade têm amargor mínimo ou ausente e devem “descer redondos”. No entanto, isso não exclui a possibilidade de adição de nenhum ingrediente num café de ótima qualidade, inclusive do açúcar.

Algumas informações sobre açúcar e café:

  1. A sacarose, frequentemente utilizada no Brasil, é uma das cadeias de açúcares que compõem o café, inclusive a mais incidente.
  2. A maioria dos italianos, criadores do Espresso, adoçam sua bebida.
  3. O açúcar é geralmente utilizado para equilibrar alimentos com nível alto de amargor, como cafés de baixa qualidade, por exemplo, ou acidez aguda, como suco de limão.

O problema é que, na sede de educar o consumidor, os profissionais da área de café de qualidade incorrem em dois erros. O primeiro é desconsiderar que a necessidade de doçura de cada pessoa é diferente e que pode ser bem maior do que a da média do pessoal da área de café Especial. Muitas pessoas têm baixa tolerância a níveis mínimos de amargor ou acidez e, para ter prazer com determinadas bebidas ou comidas, usam açúcar. Pressupor que todas as pessoas gostam dos mesmos níveis de doçura é um grande equívoco, que pode levar o consumidor a não gostar de um café maravilhoso.

Outro fator importantíssimo, frequentemente esquecido pelos baristas e torrefadores, é a força do hábito de consumo. De maneira geral, as pessoas no Brasil estão acostumadas a cafés amargos e adstringentes (sensação de secura na boca). Provar um café de alta qualidade é, inevitavelmente, uma experiência que causa estranhamento, bom ou ruim. Temos que minimizar a margem de risco ou erro dessa experiência e isolar a variável café, ou seja, pedir que a pessoa adicione o açúcar para que consiga comparar a real diferença entre o café com que está acostumada em seu dia-a-dia e o café de qualidade.

Uma outra questão é que alguns baristas implicam com o açúcar, mas colocam leite e outros ingredientes como raspinha de limão ou chantilly, que alteram bem mais o café do que somente o açúcar. Então por coerência, se um café especial admite adição de leite, como num cappuccino, por exemplo, por que implicar com a sacarose? Que tal encararmos o café adoçado como um drinque composto por dois ingredientes?

Queremos que as pessoas tenham prazer com café e que bebam café de qualidade. Deixar de adoçar suas xícaras deve ser um processo natural, sem traumas ou constrangimentos e que geralmente ocorre.

Então, bons cafés, com ou sem açúcar!


Quer saber ainda mais? Assista abaixo nossa live que aconteceu no nosso Instagram, no dia 18/05/2020 sobre esse mesmo tema.

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11 comentários

  • Talvez eu seja um dos poucos aficcionados que bebem o café de ambas as formas (isso deve ser o tal do ‘isentão’ que chamam..rs). O meu costume é dar a primeira ‘bicada’ sem adoçar, e aí depois, dependendo do dia, da minha vontade, etc, etc, adoço algo – o mínimo possível, porque realmente adoçar do jeito que a maioria faz me é enjoativo (como dito no texto, isso é uma questão totalmente pessoal). Fora vários outros bons motivos pra não usar, principalmente o açúcar, mas não caberia aqui; não há razão alguma pra maioria desses bancar o gourmetzão do café, de cima de um pedestal, doutrinando os outros. Claro que a intenção de passar essa informação pode ser boa também. Usando o bom senso, quase tudo é válido. No mais, bom texto.

  • Amo café ♥️, porém confesso que alguns sem açúcar me dão azia, mesmo sendo de qualidade. E passei a adoçar de vez em quando, principalmente quando o humor está ácido.. rsrs

  • Apesar da minha preferência ser para cafés sem açúcar, gostei da forma como escreveu!

    Sem ditadura!!

    Abc,

    Luciana

  • Excelente post. Aliás, estou contente por ver neste site especializado a busca pelo bom senso e equilíbrio nas explicações sobre as verdades e “verdades” neste ramo.

  • Comigo é assim: cafés especiais = sem açúcar. Café da empresa = MUITO (+MUITO) açúcar.

    Será que é difícil entender a diferença?

  • Fiz uma “desintoxicação” do açúcar no café aos poucos. Hoje, consigo tomar sem, mas o fato de ter respeitado e adaptado meu paladar ajudou a fazer cada experiência algo bom. Pra mim, valeu bastante. Eu recomendo a tentativa.

  • Olá, boa tarde!

    Qualquer dia vou aí tomar o “seu café”, sou um apreciador de café e ando pelas ruas das cidades a procura de um espresso que me agrade. A primeira vez que tomei um café espresso sem açúcar foi com raspas de limão, e adorei. Mas confesso que nem todas as outras experiências (sem as raspas ou com as raspas) me agradaram.

    Abraços

  • Eu sou uma bebedora convicta de café adoçado.
    Vivo sob os olhares cheios de julgamento dos amigos.

    Não sei se é a força do hábito ou resistência baixa ao amargor ou acidez.

    Enfim, amei o post! Chega da ditatura do amargor!
    Meu café do coração é o Icatu filtrado e COM açúcar.

  • Olá Isabela, boa tarde!

    Me sinto, vamos dizer, “amparado” por este post!!
    Sempre fico constrangido quando adoço MEU café e, os auto-declarados “especialistas” em café, logo começam com suas teorias que isso acaba com o sabor original do café, e blá, blá, blá…

    Parabéns pelo Site.

    José Augusto (Goiânia, Goiás)

  • realmente eu que sou sommelier e hoje um apaixonado por cafe…vejo que ja necessidade de apreciar ….feito uma tc de vh….abs

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